O genograma olha para trás. O ecomapa olha para fora.
Um genograma mostra estrutura e história: quem se relaciona com quem ao longo das gerações e que padrões se repetem. O que não mostra é o mundo em que a família vive agora. Dois agregados podem ser idênticos no papel e ter vidas completamente diferentes, um sustentado pelo trabalho, pela escola, pela vizinhança e pela comunidade, o outro a aguentar-se quase sem nada à volta.
O ecomapa é o diagrama para essa segunda pergunta. O agregado fica num círculo ao centro, os sistemas com que contacta ficam em círculos à volta, e as linhas entre eles mostram como é cada ligação e em que sentido funciona. Ann Hartman publicou-o em 1978 juntamente com o genograma, descrevendo ambos como "two simple paper-and-pencil simulations" (Hartman, 1978, p. 467).
Origem e autoria
Ann Hartman desenvolveu o ecomapa em 1975, na School of Social Work da University of Michigan, no âmbito do Child Welfare Learning Laboratory, financiado pelo governo federal. A primeira função era prática: ajudar profissionais da proteção de menores a "examine the needs of families" (Hartman, 1978, p. 467). Foi testado de forma intensiva com pais que trabalhavam para o regresso dos filhos em acolhimento.
Dois pormenores costumam perder-se. O primeiro é que o ecomapa nasceu como instrumento de reflexão do profissional, não como exercício conjunto; o uso dialogado surgiu depois, por descoberta: "before long, it became apparent that the eco-map would make a useful interviewing tool" (Hartman, 1978, p. 469).
O segundo é o que aconteceu quando passou a ser usado assim. Hartman descreve profissional e cliente a sentarem-se "shoulder-to-shoulder, working together on the joint project", e relata que, no acolhimento familiar, pais habitualmente "angry and self-protective" após a retirada dos filhos foram "almost without exception engaged through the use of the map" (Hartman, 1978, p. 471). A explicação dela: a perspetiva ecológica deixava claro que o profissional não andava à procura de defeitos internos, mas queria perceber como é estar no lugar daquela família.
A teoria geral dos sistemas por trás da imagem
O ecomapa parece simples, e isso engana. A sua lógica vem da teoria geral dos sistemas, e quatro ideias mudam aquilo que se vê na folha.
A família é um sistema aberto. A teoria geral dos sistemas distingue os sistemas que trocam energia, matéria e informação com o meio dos que não trocam (von Bertalanffy, 1968). Um agregado é forçosamente aberto: recebe rendimento, escolaridade, cuidados e companhia, e devolve trabalho, atenção e dinheiro. O ecomapa é uma imagem dessa troca.
O círculo é uma fronteira, e as fronteiras têm permeabilidade. Onde acaba o agregado e começa o meio é uma questão clínica, não uma decisão de desenho. Uma fronteira atravessada por muitas linhas diferentes pertence a uma família em circulação com o que a rodeia. Uma atravessada por dois traços finos pertence a uma família que se fechou, ou que foi fechada.
As setas são entrada e saída. Os sistemas mantêm-se importando mais do que gastam; um sistema que só exporta esgota-se. O pai exausto de Hartman leu exatamente isso na folha, sem precisar do vocabulário.
Os círculos exteriores são o suprassistema. Uma família é feita de subsistemas e está inserida em sistemas maiores. Mello et al. (2005) descrevem o ecomapa nestes mesmos termos, como representação das relações "com o supra-sistema". O genograma olha para dentro, para a estrutura interna; o ecomapa olha para fora, para a posição da família no todo maior. É a forma mais clara de dizer porque é que os dois diagramas não competem.
Uma precisão quanto à linhagem: Hartman situa o instrumento na perspetiva ecológica que estava a transformar o serviço social nos anos 70, a mesma corrente de onde saiu o modelo ecológico do desenvolvimento humano de Bronfenbrenner (1979). O ecomapa é produto desse momento, não a aplicação de um modelo único.
O que significam as linhas
A notação de Hartman é curta. Nas palavras dela, uma linha contínua ou grossa representa uma ligação forte, uma linha pontilhada uma ligação ténue, e marcas em ziguezague atravessadas na linha representam uma relação stressante ou conflituosa; setas ao longo da linha indicam o sentido em que fluem recursos, energia ou interesse (Hartman, 1978, p. 468).
Força e sentido são, portanto, duas perguntas distintas. Uma ligação pode ser forte e drenante, ou fraca e nutritiva.
Importa o que Hartman ressalva no mesmo parágrafo. Nos testes, o código de três linhas funcionou bem enquanto o profissional analisava sozinho. Em entrevista, foi muitas vezes sentido como "too constraining", e os profissionais preferiram pedir ao cliente que descrevesse a ligação, escrevendo depois essa descrição ao longo da linha (Hartman, 1978, p. 468). O exemplo da própria autora usa precisamente isso.
Escrever palavras na linha não é, portanto, um atalho de principiante. É a alternativa documentada pela autora, e a que se impôs na prática com clientes.
Uma nota sobre as convenções lusófonas
Na literatura em português circula também uma gradação por número de linhas. Mello et al. (2005) descrevem-na para o genograma, onde uma linha contínua entre dois membros indica relação forte e duas linhas juntas indicam relação muito forte. Borges Gomes e Dalla Vecchia (2023) descrevem o ecomapa como usando "linhas simples, duplas, triplas ou tracejadas".
O que importa reter é que esta gradação não é a de Hartman, cujo texto não contém qualquer gradação por número de linhas: a força é dada pela espessura e pelo estilo do traço. Circulam assim duas convenções, e quem foi formado numa lê mal a outra. Vale a pena indicar no próprio diagrama qual está a ser seguida.
Vale ainda referir o Genograma e Ecomapa Ampliado (GEA) de Borges Gomes e Dalla Vecchia (2023), a tentativa recente mais substantiva de atualizar o repertório gráfico. A partir de trabalho de campo em cuidados psicossociais, as autoras foram criando símbolos durante as próprias entrevistas, acrescentando à legenda sempre que um acontecimento narrado não tinha representação, com atenção às identidades de género e orientações sexuais, às violências no seio da família e à pluralidade de arranjos familiares.
Como se lê um ecomapa
Hartman demonstrou duas leituras que continuam a ser a forma habitual de olhar para um mapa terminado.
O vazio lê-se como isolamento. "An almost empty eco-map helps the client objectify and share loneliness and isolation" (Hartman, 1978, p. 471).
Setas para fora leem-se como desgaste. Ela descreve um mapa cheio de relações stressantes com todas as setas a apontar para fora da família, o que levou um pai a dizer: "No wonder I feel drained, everything is going out and nothing is coming in!" (Hartman, 1978, p. 471).
Uma ressalva da literatura atual: um mapa denso não prova apoio efetivo. A revisão mais recente sobre o uso em investigação em serviços de saúde conclui que o apoio assinalado num ecomapa não garante que esse apoio seja prestado, e que boa parte do valor está na conversa necessária para o construir (Saragosa et al., 2024).
Desenhar um ecomapa no WebGeno
O WebGeno não tem um modo dedicado a ecomapas. Tem as peças necessárias, e combinadas dão algo próximo da forma de Hartman: caixas de grupo para os círculos, nós como o seu conteúdo e linhas de relação para as ligações.
O passo que faz a diferença é usar um grupo para cada círculo, incluindo cada sistema, mesmo quando o grupo tem um único elemento. Os grupos são a única coisa no WebGeno que desenha uma fronteira com etiqueta à volta de algo. Usando-os para o agregado e para os sistemas, ambos passam a ler-se como o mesmo tipo de objeto, que é exatamente o que a notação pretende.
Quatro passagens, abaixo tal como aparecem na aplicação. Primeiro a estrutura, depois o significado.
1. Agrupar o agregado
Crie os membros do agregado como habitualmente, selecione-os e crie um grupo chamado "Agregado familiar". Essa caixa é o seu círculo central: dentro está o sistema familiar, fora está o meio.
2. Dar a cada sistema o seu próprio grupo
Para cada parte do meio que importa, adicione um único nó e coloque-o num grupo próprio, com o nome do sistema: Escola, Trabalho, Centro de saúde, Mãe da Ana, Igreja, Descanso do cuidador.
A etiqueta do grupo carrega o nome, por isso o nó lá dentro não precisa de nenhum. Deixe o nome vazio e esconda as etiquetas, e ele passa a ser aquilo que de facto é: um ponto de ancoragem para as linhas.
3. Ligar os sistemas às pessoas
Trace linhas de relação do nó de ancoragem de cada sistema até à pessoa do agregado a que diz respeito. Como as linhas se ligam a pessoas, obtém-se a parte do desenho de Hartman que a maioria das ferramentas perde: o mesmo sistema pode relacionar-se de forma diferente com dois membros do mesmo agregado, e o mapa mostra-o.
Não é um detalhe técnico. Hartman traçava ligações por pessoa precisamente para que um mapa pudesse mostrar "the contrasts in the way various family members are connected to the world" (Hartman, 1978, p. 469). Para uma ligação que pertence de facto a todo o agregado, trace-a até ao membro que representa a família nesse domínio e registe-o na descrição.
4. Dar significado a cada linha
Por fim, dê estilo às ligações. Os tipos de relação personalizados do WebGeno permitem definir uma linha pelo estilo, espessura, sobreposição e pontas de seta, que é exatamente o vocabulário de que a notação de Hartman precisa.
| Notação | Significado | Definições do tipo personalizado |
|---|---|---|
| Linha contínua grossa | Ligação forte e importante | Estilo solid, espessura thick |
| Linha pontilhada | Ligação ténue | Estilo dotted, espessura thin |
| Linha em ziguezague | Stressante ou conflituosa | Sobreposição zigzag |
| Linha ondulada | Necessária, mas indisponível | Sobreposição wave |
| Ponta de seta | Sentido do fluxo de recursos | Seta filled, sentido end ou both |
A linha ondulada para um recurso necessário e indisponível não é de Hartman: vem da tradição de língua alemã (Hepworth, Rooney e Larsen, adaptado por Pantucek, 2005), onde o cliente traça uma linha ondulada até todos os círculos de que precisaria mas que não tem ao seu dispor. Preenche uma lacuna real, porque sem ela um apoio em falta é indistinguível de espaço vazio no mapa.
Dê nomes claros aos tipos ("Necessário, indisponível") e use o campo de descrição em cada linha. Escrever na linha é a alternativa da própria Hartman ao código de símbolos, e resiste melhor à conversa com o cliente do que uma legenda.
Os tipos de relação personalizados fazem parte do plano Professional, até dez, mais do que um ecomapa precisa. No plano gratuito é possível aproximar as mesmas leituras com os tipos incorporados: uma linha harmoniosa ou próxima para um vínculo forte, uma distante para um vínculo ténue e uma linha de conflito para um vínculo stressante.
Abrir o exemplo.
Este mapa está incorporado no WebGeno. Um clique abre o agregado fictício, já agrupado, ligado e com estilos aplicados. Desmonte-o, ou guarde uma cópia e comece o seu.
Abrir o exemplo de ecomapa →O que esta abordagem não dá
As costuras estão à vista nas imagens acima. Os nós de ancoragem são símbolos de pessoa a fazer de instituições, e um nó de género desconhecido desenha um ponto de interrogação. As caixas de grupo envolvem o conteúdo em vez de desenharem círculos verdadeiros, pelo que um agregado de três pessoas se lê como uma forma arredondada. As etiquetas de grupo ficam por predefinição no centro, por isso num sistema com um só nó é preciso deslocá-las. E nada no ficheiro sabe que aquilo é um ecomapa, pelo que a aplicação não o impede de desenhar algo que a notação não prevê.
Em troca fica com a fronteira do agregado, o vocabulário completo de linhas incluindo a ondulada, ligações por pessoa e tudo o resto que o WebGeno já faz com o mesmo ficheiro: desfazer, encriptação, exportação e partilha.
Onde estão hoje os ecomapas
O ecomapa nunca chegou a ter uma notação única, ao contrário dos símbolos do genograma. A adaptação é a norma: ao rever 73 estudos, Manja et al. (2021) concluíram que os investigadores adaptam o ecomapa às suas necessidades, e o protocolo da revisão posterior descreve o campo como "heterogenous in its purpose, methodology and reporting" (Saragosa et al., 2023). Nascido no serviço social, ganhou uma segunda vida como instrumento de investigação, usado para obter relatos de apoio social e não para os medir (Rempel et al., 2007; Manja et al., 2021).
Em Portugal e no Brasil, o par genograma e ecomapa está sobretudo associado à enfermagem e à estratégia de saúde da família, onde Mello et al. (2005) descrevem a sua construção junto das próprias famílias, em visita domiciliária, como parte da avaliação estrutural.
Essa literatura também é franca quanto aos custos. Manja et al. (2021) apontam o tempo e a formação adicionais e "potential privacy and confidentiality concerns", o que merece ponderação, dado que um mapa terminado reúne muitos terceiros numa só folha. E um ecomapa é uma fotografia de um momento: como escrevem Jestico et al. (2023), cada ecomapa criado "will not be a definitive representation and is not generalisable".
Conclusão
O ecomapa justifica-se por uma razão: torna visível a forma de uma vida como os parágrafos não conseguem. Um agregado isolado parece isolado. Uma família a ser drenada parece drenada. Cinquenta anos depois de Hartman ter desenhado o primeiro, continua a ser esse o ponto, e bastam dez minutos para descobrir o que mostra sobre um caso que julgava já conhecer.
Referências
Borges Gomes, T., & Dalla Vecchia, M. (2023). Genograma e ecomapa ampliado como instrumentos de pesquisa e intervenção psicossocial. Revista Pesquisa Qualitativa, 11(28), 710–727. https://doi.org/10.33361/RPQ.2023.v.11.n.28.658
Bronfenbrenner, U. (1979). The ecology of human development: Experiments by nature and design. Harvard University Press.
Hartman, A. (1978). Diagrammatic assessment of family relationships. Social Casework, 59(8), 465–476. https://doi.org/10.1177/104438947805900803
Jestico, E. C. L., Taylor, B., Finlay, T. M. D., & Schutz, S. E. (2023). The ecomap: A tool for extending understanding in hermeneutic phenomenological research. Nurse Researcher, 31(4), 6–13. https://doi.org/10.7748/nr.2023.e1890
Manja, V., Nrusimha, A., MacMillan, H., Schwartz, L., & Jack, S. (2021). Use of ecomaps in qualitative health research. The Qualitative Report, 26(2), 412–442. https://doi.org/10.46743/2160-3715/2021.4565
Mello, D. F. de, Vieira, C. S., Simpionato, É., Biasoli-Alves, Z. M. M., & Nascimento, L. C. (2005). Genograma e ecomapa: Possibilidades de utilização na estratégia de saúde da família. Revista Brasileira de Crescimento e Desenvolvimento Humano, 15(1), 79–89. https://doi.org/10.7322/jhgd.19751
Pantucek, P. (2005). Materialien zu diagnostischen Verfahren. https://www.pantucek.com/
Rempel, G. R., Neufeld, A., & Kushner, K. E. (2007). Interactive use of genograms and ecomaps in family caregiving research. Journal of Family Nursing, 13(4), 403–419. https://doi.org/10.1177/1074840707307917
Saragosa, M., Singh, H., Steele Gray, C., Tang, T., Orchanian-Cheff, A., & Nelson, M. L. A. (2023). Use of eco-mapping in health services research: A scoping review protocol. BMJ Open, 13(5), Article e072588. https://doi.org/10.1136/bmjopen-2023-072588
Saragosa, M., Singh, H., Steele Gray, C., Tang, T., Orchanian-Cheff, A., & Nelson, M. L. A. (2024). Exploring the landscape of eco-mapping in health services research: A comprehensive review. Health & Social Care in the Community, 2024, Article 9503785. https://doi.org/10.1155/2024/9503785
von Bertalanffy, L. (1968). General system theory: Foundations, development, applications. George Braziller.