O genograma tornou-se uma das ferramentas de avaliação mais amplamente utilizadas na terapia familiar, no serviço social, na enfermagem e na prática de saúde mental. No entanto, poucos profissionais conhecem a fascinante história por detrás desta técnica de mapeamento visual — ou que o próprio termo "genograma" permanece algo misterioso mesmo para os seus pioneiros.
"Não sei de onde vieram os genogramas, para dizer a verdade, e o Murray também não sabia. Tentámos descobrir sem sucesso." — Monica McGoldrick (Amorin-Woods, 2024, p. 357)
Este artigo traça o desenvolvimento dos genogramas desde as suas origens na investigação de Murray Bowen nos National Institutes of Mental Health, passando pela sua popularização nos anos 1980, até à sua evolução contínua nos dias de hoje. Compreender esta história ajuda os profissionais a apreciar tanto os fundamentos teóricos como as aplicações práticas desta ferramenta clínica essencial.
As Origens: Murray Bowen e os Diagramas Familiares (1954-1966)
O Projeto de Investigação do NIMH
Foto: Andrea Schara / The Bowen Center for the Study of the Family
As raízes do genograma podem ser rastreadas até à investigação pioneira do psiquiatra Murray Bowen nos National Institutes of Mental Health (NIMH), de 1954 a 1959. Durante este período, Bowen começou a desenvolver o que chamou de "diagramas familiares" como parte da sua emergente teoria dos sistemas familiares (Butler, 2008).
Em 1957, "a ferramenta para representar famílias em diagrama está implementada e a ser utilizada pelos investigadores" (Dysinger, 2003, conforme citado em Butler, 2008, p. 172). A escolha terminológica de Bowen foi deliberada — ele preferiu o termo descritivo direto "diagrama familiar" em vez de cunhar uma nova palavra (Kerr & Bowen, 1988).
Fundamentos Teóricos
Central na abordagem de Bowen estava a sua conceptualização da família como um sistema emocional unificado em vez de simplesmente um grupo de indivíduos separados (Puskar & Nerone, 1996). A sua teoria dos sistemas familiares, desenvolvida entre 1966 e 1970, identificou oito conceitos fundamentais que permanecem basilares para a interpretação de genogramas hoje:
- Diferenciação do self
- Triângulos
- Processo emocional da família nuclear
- Processo de projeção familiar
- Processo de transmissão multigeracional
- Posição entre irmãos
- Corte emocional
- Processo emocional social
O diagrama familiar serviu como ferramenta visual para registar aquilo que Butler (2008, p. 170) descreve como os "factos do funcionamento" ao longo de pelo menos três gerações, refletindo processos emocionais dentro do sistema familiar.
Padronização dos Símbolos
Em 1966, Bowen estabeleceu os símbolos comummente aplicados nos diagramas familiares, criando uma linguagem visual padronizada para representar a estrutura familiar, relações e padrões (Piasecka et al., 2018). Estes símbolos — quadrados para masculinos, círculos para femininos, linhas horizontais para casamentos, linhas verticais para filhos — formaram a base que os profissionais ainda utilizam hoje. Para uma visão abrangente destes símbolos, consulte o nosso guia completo de símbolos de genograma.
A Emergência do Termo "Genograma" (1972)
Um Novo Nome Ganha Força
Enquanto Bowen continuava a utilizar "diagrama familiar", um novo termo emergiu dos seus alunos. Philip J. Guerin, que se formara com Bowen, parece ter originado o termo "genograma" no final dos anos 1960 ou início dos anos 1970 (Butler, 2008). Guerin dirigiu posteriormente o Center for Family Learning em Westchester, Nova Iorque (Amorin-Woods, 2024).
A palavra apareceu pela primeira vez na literatura publicada em 1972, quando Guerin e Fogarty definiram o genograma como "um diagrama esquemático do sistema relacional familiar de três gerações" (Guerin & Fogarty, 1972, conforme citado em Piasecka et al., 2018, p. 1).
Como McGoldrick recordou: "O Murray não queria chamá-los genogramas por alguma razão; chamava-lhes 'diagramas familiares'. Os seus 'descendentes', as pessoas que trabalham diretamente no seu Instituto, seguiram as regras do Bowen" (Amorin-Woods, 2024, p. 357).
Uma Distinção Importante
É essencial reconhecer que os diagramas familiares e os genogramas, embora relacionados, representam métodos de avaliação distintamente diferentes com fundamentos teóricos diferentes (Butler, 2008). O diagrama familiar permanece enraizado na teoria dos sistemas naturais de Bowen, com o seu foco em processos biológicos e emocionais universais. O genograma, tal como evoluiu, passou a representar uma perspetiva mais ampla dos sistemas familiares que enfatiza múltiplos níveis contextuais incluindo cultura, comunidade e sociedade.
"É inquestionável que o genograma deriva diretamente do diagrama familiar de Bowen." — Butler (2008, p. 176)
Popularização e Expansão (1980-2000)
A Contribuição de McGoldrick e Gerson
Foto: Multicultural Family Institute
O genograma alcançou reconhecimento e padronização generalizados em grande parte através do trabalho de Monica McGoldrick e Randy Gerson (Piasecka et al., 2018). O seu livro de 1985, Genograms in Family Assessment, forneceu o primeiro guia prático abrangente para aplicação clínica.
A contribuição de McGoldrick estendeu-se para além da mera popularização. Ela foi "fundamental na expansão do uso dos genogramas ao reconhecer os elementos importantes da cultura, etnicidade, raça e género. Esta lente inovadora criou uma grande mudança de paradigma na prática e na investigação" (Amorin-Woods, 2024, p. 351).
Esta lente cultural emergiu da experiência pessoal de McGoldrick. Como ela descreveu: "Desde o dia em que aterrei na Irlanda, nunca mais parei de perguntar às pessoas, 'Qual é a sua história?', 'Qual é o seu contexto cultural?', 'Como é que as pessoas na sua família fazem?' Tornou-se tão absolutamente óbvio que a cultura desempenha um papel enorme" (Amorin-Woods, 2024, p. 360).
Esforços de Padronização
Ao longo dos anos 1980 e 1990, vários grupos profissionais trabalharam para padronizar os símbolos e a metodologia do genograma. O Grupo de Trabalho do North American Primary Care Research Group estabeleceu padrões de símbolos recomendados (Puskar & Nerone, 1996), enquanto McGoldrick e colegas continuaram a refinar a sua abordagem através de edições subsequentes do seu texto seminal.
Em 1999, McGoldrick, Gerson e Shellenberger publicaram uma edição atualizada que Butler (2008, p. 175) descreve como o "padrão de ouro" para a aplicação clínica do genograma, incluindo símbolos para configurações familiares diversas, padrões relacionais e características individuais.
Dos diagramas desenhados à mão às ferramentas digitais.
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Adoção Generalizada em Diversas Disciplinas
O que começou como uma ferramenta de terapia familiar expandiu-se muito para além das suas origens. Os genogramas são agora utilizados em múltiplas disciplinas, incluindo saúde mental, serviço social, enfermagem, investigação genética, educação e até contextos empresariais (Joseph et al., 2023).
Na prática de enfermagem, os genogramas tornaram-se "uma ferramenta indispensável para enfermeiros de qualquer especialidade no seu trabalho com o paciente" (Piasecka et al., 2018, p. 4). A ferramenta permite a avaliação da saúde física e psicossocial ao longo de três gerações, apoiando uma abordagem abrangente e holística dos cuidados ao paciente.
Adaptações Especializadas
O genograma básico deu origem a numerosas variações especializadas para responder a necessidades clínicas específicas:
- Genograma Cultural (Hardy & Laszloffy, 1995) — exploração da identidade étnica e cultural
- Genograma Espiritual (Wiggins-Frame, 2000) — exame das dinâmicas religiosas e espirituais
- Genograma Transgeracional de Trauma e Resiliência (Goodman, 2013) — abordagem da transmissão de trauma ao longo das gerações
- Genograma Cronológico (Friedman et al., 1988) — destaque dos aspetos temporais das relações familiares
- Genograma Sexual (Hof & Berman, 1986) — exploração de atitudes e padrões sexuais
Do Papel ao Digital
A evolução dos diagramas desenhados à mão para ferramentas digitais representa o capítulo mais recente na história do genograma. Enquanto Butler (2008) notou que naquela altura não existia software para produzir diagramas familiares, desde então surgiram vários programas de software de genograma.
No entanto, ainda em 2018, investigadores observaram que faltava software abrangente que permitisse a criação, arquivo e utilização para investigação de genogramas: "Infelizmente, não existe software disponível que permita a criação de genogramas tornando possível registar informação e arquivá-la para fins de investigação e tratamento" (Piasecka et al., 2018, p. 2).
Esta lacuna nas ferramentas disponíveis continua a impulsionar a inovação na área, com aplicações modernas baseadas na web como o WebGeno a trabalhar para colmatar estas limitações.
A Lacuna de Investigação em Curso
Apesar de décadas de utilização clínica, a investigação empírica sobre a eficácia dos genogramas permanece limitada. Uma revisão sistemática de 2023 encontrou "uma escassez de investigação empírica sobre a eficácia terapêutica dos genogramas na terapia familiar no contexto internacional" (Joseph et al., 2023, p. 23).
Joseph et al. (2023) notam que a maior parte da literatura publicada consiste em estudos de caso e artigos descritivos em vez de estudos de intervenção controlados. A maioria da investigação focou-se nas perspetivas dos profissionais, com uma exploração limitada das experiências dos clientes com intervenções baseadas em genogramas.
Esta lacuna de investigação apresenta tanto um desafio como uma oportunidade para a área. À medida que os genogramas continuam a evoluir e as ferramentas digitais os tornam mais acessíveis, a investigação rigorosa sobre a sua eficácia terapêutica torna-se cada vez mais importante.
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Desde os diagramas familiares desenhados à mão por Murray Bowen no NIMH nos anos 1950 até às aplicações digitais de genograma da atualidade, esta ferramenta de avaliação visual sofreu uma evolução notável. As contribuições de pioneiros como Bowen, Guerin, McGoldrick e Gerson transformaram uma ferramenta de investigação clínica num componente essencial da prática centrada na família em múltiplas disciplinas.
Compreender esta história ajuda os profissionais a apreciar a profundidade teórica subjacente ao que pode parecer uma simples árvore genealógica. Quer se chame diagrama familiar ou genograma, esta ferramenta continua a servir o seu propósito original: tornar visíveis os padrões, relações e processos que moldam os sistemas familiares ao longo das gerações.
"Estamos todos juntos nisto. Aqueles que vieram antes estão a influenciar-nos mesmo enquanto falamos, e nós estamos a influenciar o que virá depois enquanto falamos." — Monica McGoldrick (Amorin-Woods, 2024, p. 363)
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Começar GratuitamenteReferências
Amorin-Woods, D. (2024). Genograms, culture, love and sisterhood: A conversation with Monica McGoldrick. Australian and New Zealand Journal of Family Therapy, 45(3), 349–366. https://doi.org/10.1002/anzf.1602
Butler, J. F. (2008). The family diagram and genogram: Comparisons and contrasts. The American Journal of Family Therapy, 36(3), 169–180. https://doi.org/10.1080/01926180701291055
Goodman, R. D. (2013). The transgenerational trauma and resilience genogram. Counselling Psychology Quarterly, 26(3-4), 386–405. https://doi.org/10.1080/09515070.2013.820172
Joseph, B., Dickenson, S., McCall, A., & Roga, E. (2023). Exploring the therapeutic effectiveness of genograms in family therapy: A literature review. The Family Journal: Counseling and Therapy for Couples and Families, 31(1), 21–30. https://doi.org/10.1177/10664807221104133
Kerr, M. E., & Bowen, M. (1988). Family evaluation: An approach based on Bowen theory. W. W. Norton.
McGoldrick, M., & Gerson, R. (1985). Genograms in family assessment. Norton.
McGoldrick, M., Gerson, R., & Shellenberger, S. (1999). Genograms: Assessment and intervention (2nd ed.). Norton.
Piasecka, K., Slusarska, B., & Drop, B. (2018). Genograms in nursing education and practice: A sensitive but very effective technique: A systematic review. Journal of Community Medicine & Health Education, 8(6), 640. https://doi.org/10.4172/2161-0711.1000640
Puskar, K., & Nerone, M. (1996). Genogram: A useful tool for nurse practitioners. Journal of Psychiatric and Mental Health Nursing, 3, 55–60.