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O que a investigação diz realmente sobre os genogramas

Os genogramas são equipamento corrente na formação em terapia familiar, na medicina de família, no trabalho social e na psicologia educacional. A evidência sobre se fazem aquilo que lhes é atribuído é bastante mais difícil de encontrar do que o entusiasmo por eles. O que se segue são quatro décadas dessa investigação: o que está demonstrado, o que não está, e aquilo em que cada uma dessas coisas se traduz na prática.

Um genograma atravessa o artigo como exemplo trabalhado. A família Silva é fictícia, inventada para o efeito: um genograma real contém informação confidencial e não tem lugar fora do contexto clínico.

1. A pergunta errada (e a certa)

Monica McGoldrick, que padronizou o formato, define o genograma como "uma forma gráfica de organizar a massa de informação recolhida durante uma avaliação familiar" (McGoldrick et al., 2020). A definição não reclama mais do que isso. Não é um teste, uma medida nem um instrumento de diagnóstico.

A história é consistente com a definição. A palavra "genograma" aparece na literatura em 1972, cunhada por Philip Guerin, aluno de Murray Bowen, para o diagrama de três gerações que Bowen usava desde os anos 50 (Butler, 2008). O formato gráfico só foi padronizado nos anos 80 por um comité, apresentado por McGoldrick e Gerson em 1985; antes disso cada profissional desenhava à sua maneira e ninguém conseguia ler os diagramas dos outros (Wendt & Crepaldi, 2008).

O genograma foi construído como um mapa e é como mapa que deve ser julgado. "O genograma é válido?" está próximo de perguntar se um mapa é verdadeiro; a pergunta com resposta é se o processo de avaliação construído à sua volta é rigoroso.

Genograma de três gerações da família Silva fictícia mostrando apenas a estrutura: quadrados e círculos com nomes e idades, linhas de casamento e de filiação
A família Silva, primeira passagem: estrutura e datas, sem nada ainda inferido a partir delas.

2. O que está bem demonstrado

A investigação psicométrica sobre genogramas é pequena mas consistente num ponto: a recolha estruturada de informação replica-se bem.

  • Um protocolo padronizado de entrevista de genograma, o Family Genogram Interview, atingiu cerca de 95% de acordo entre entrevistadores diferentes com a mesma pessoa (Platt & Skowron, 2013).
  • O genograma auto-administrado SAGE mostrou 89,7% de estabilidade test-retest ao fim de três meses (Rogers & Holloway, 1990).
  • Dois terapeutas familiares experientes, a classificar padrões relacionais nos mesmos genogramas, concordaram em 88% a 100% dos casos (Wendt & Crepaldi, 2008).

O genograma cumpre também aquilo que promete em matéria de informação: no único ensaio clínico aleatorizado feito com genogramas, os que foram aplicados em primeiras consultas documentaram mais informação sobre estrutura familiar, eventos de vida, doenças repetidas e relações do que os médicos conseguiram sozinhos (Rogers & Cohn, 1987). Os profissionais que os usam descrevem o mesmo efeito noutros termos: o desenho retém uma "gestalt" que faz emergir padrões mais depressa do que a conversa sozinha (Newbury, 2019).

A mesma investigação traz uma ressalva. No estudo do SAGE, a fiabilidade não era uniforme: nomes e profissões replicavam-se a 97%, mas as idades de pais e avós só a 50-55%, e a informação degradava-se a cada geração de distância (100% para o próprio, 85% para os pais, 75% para os avós). A memória familiar é um informante imperfeito, e as autoridades em genética recomendam confirmar dados críticos por registos antes de decidir com base neles (Rich et al., 2004).

O genograma da família Silva com os factos adicionados: marcas de falecimento, condição de cancro da mama na avó e pontos de interrogação nas idades dos avós
Segunda passagem: factos. Os "?" são deliberados e registam o ponto em que a exatidão do relato cai para 50-55%, nas idades das gerações mais distantes (Rogers & Holloway, 1990).

3. O que está por demonstrar

Eficácia terapêutica: a revisão de literatura mais recente pesquisou cinco bases de dados internacionais e encontrou apenas 18 estudos elegíveis sobre genogramas, dos quais só 2 eram estudos de intervenção, e nenhum era específico do contexto de terapia familiar (Joseph et al., 2023). Nenhum estudo alguma vez comparou o genograma com outra ferramenta terapêutica.

Validade preditiva: num estudo do início dos anos 90, seis médicos peritos em genogramas tentaram prever eventos de saúde de pacientes reais a três meses. As previsões com genogramas não foram melhores do que as feitas com a simples revisão do processo clínico, e nenhum perito previu acima do nível do acaso (Rogers et al., 1992). Monica McGoldrick é coautora desse estudo. O resultado desconfirmatório foi publicado pela tradição que desenvolveu o instrumento.

Este é o estatuto probatório corrente de uma técnica clínica qualitativa, e tem uma consequência direta: um genograma não prevê nem conclui nada sozinho.

O genograma completo da família Silva com linhas relacionais: corte emocional entre o pai e o avô, proximidade entre a mãe e a avó, conflito ligeiro entre os irmãos
O genograma completo dos Silva, com o Tomás (9) como paciente identificado. A partir de diagramas deste tipo, seis clínicos peritos em genogramas previram eventos de saúde ao nível do acaso (Rogers et al., 1992).

4. Como os peritos leem o mesmo genograma

O mesmo grupo de investigadores debruçou-se sobre a forma como os peritos leem genogramas. Doze clínicos experientes leram os genogramas dos mesmos 58 pacientes. O resultado divide-se em dois (Rohrbaugh et al., 1992):

  • Em abstrato, concordam. Sobre que categorias de informação importam em geral (condições médicas, composição do agregado, transições de ciclo de vida, padrões entre gerações), o acordo era alto.
  • No caso concreto, discordam. Perante o mesmo genograma, o que cada perito considerava importante variava tanto que as correlações entre juízes ficaram todas abaixo de .45. A explicação dos autores: a leitura de um genograma depende da teoria de quem lê. Nas palavras deles, "os genogramas familiares são fundamentalmente diferentes das radiografias".
O genograma da família Silva com destaques de leitura boweniana: o corte emocional entre Carlos e António e um possível triângulo pais-filho
Leitura A (tradição boweniana): um leitor boweniano olharia para o corte entre Carlos e o pai e perguntaria por padrões multigeracionais de gestão da ansiedade (Kerr & Bowen, 1988).
O mesmo genograma da família Silva com destaques de leitura contextual: uma emigração, uma perda recente e os turnos noturnos da mãe
Leitura B (lente contextual): um leitor contextual olharia para a perda recente, a emigração e os turnos noturnos da mãe, e perguntaria por stressores e redes de apoio (McGoldrick et al., 2020).

O mesmo genograma, duas leituras competentes, nenhuma delas errada e nenhuma delas demonstrada. As correlações entre juízes ficaram abaixo de .45 (Rohrbaugh et al., 1992).

O achado traduz-se diretamente na prática: o que um genograma mostra são hipóteses, não conclusões. As duas leituras acima são aberturas para conversa com a família Silva, não achados sobre ela.

5. As práticas que a evidência sustenta

Lida no seu conjunto, a investigação não argumenta contra o uso de genogramas. Descreve as condições em que se aguentam:

  1. A entrevista clínica vem primeiro. O genograma organiza uma conversa, não a substitui (Burd & Baptista, 2004, citados por Lins et al., 2016). No nosso exemplo, a linha de corte entre Carlos e António só foi desenhada depois de Carlos falar da relação com o pai, não deduzida do desenho.
  2. Administração estruturada por quem tem formação. Toda a fiabilidade alta da secção 2 foi obtida com protocolos padronizados e aplicadores treinados. A falta de treino é a limitação número um que os próprios profissionais reportam (Newbury, 2019; Penteado, 2025).
  3. Hipótese, nunca veredito. Registar separadamente o que o genograma mostra e o que o clínico infere é a recomendação explícita de Rohrbaugh e colegas para tornar a leitura mais fiável.
  4. Confirmar factos críticos. Quando uma informação do genograma pesa numa decisão, confirmá-la por outros familiares ou registos (Rich et al., 2004). O "?" na idade do avô regista a incerteza em vez de a absorver.
  5. Mais do que uma fotografia. O genograma é estático e a família não é; a literatura recomenda dois ou mais genogramas ao longo do tempo para captar a mudança (Wendt & Crepaldi, 2008; Mello et al., 2005).
  6. Adaptar a notação à família real. O formato padrão assume famílias nucleares, biológicas e ocidentais; pessoas significativas que não cabem nessa grelha ficam invisíveis se não formos deliberados (Hardy & Laszloffy, 1995; Alexander et al., 2022). Os Silva têm a Lurdes, madrinha do Tomás e presença diária na casa: não é "família" na notação clássica, e é precisamente essa a razão para a desenhar.
O genograma da família Silva em 2024
2024: Sofia (16) em casa, conflito ligeiro entre irmãos, Lurdes ainda fora do mapa.
O genograma da família Silva em 2026, com a Sofia na universidade, uma relação mais próxima entre irmãos e a madrinha Lurdes adicionada ao mapa
2026: Sofia (18) na universidade, a relação entre irmãos agora próxima, e a Lurdes no mapa porque a família a pôs lá.

Práticas 5 e 6: a segunda fotografia regista a mudança, e a Lurdes aparece porque a família a colocou ali, não porque a notação a previa.

6. Porque é que os genogramas aparecem em só 11% dos processos

Se a técnica é útil e as condições para a usar bem são conhecidas, a fraca adesão pede explicação. Um estudo de observação direta em medicina familiar encontrou genogramas em apenas 11% dos processos clínicos, apesar de décadas de recomendação (Rich et al., 2004). As barreiras documentadas não são dúvidas sobre o valor: são os 15 a 30 minutos para construir um genograma de três gerações à mão, a documentação fragmentada, e o redesenho completo de cada vez que a família muda.

É esse, e não o cepticismo quanto ao método, o problema que o software resolve. Uma ferramenta como o WebGeno reduz a construção a minutos, com a notação padronizada de McGoldrick, e transforma o redesenho (nasceu um bebé, houve um divórcio, apareceu uma condição de saúde) numa edição de segundos. O que o software não faz é interpretar o mapa. Perante a evidência acima, essa parte permanece irredutivelmente clínica.

Todas as imagens deste artigo foram construídas no WebGeno.

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7. Um mapa de perguntas melhores

O genograma dos Silva está completo. Não diz porque é que o Tomás dorme mal. Indica onde vale a pena perguntar: a morte do avô, os turnos da mãe, a irmã que acabou de sair de casa, o padrão de perdas do lado materno. Quarenta anos de investigação sustentam exatamente este uso: um método padronizado e replicável de recolher e organizar a história familiar, que gera hipóteses mais ricas e mais rápidas do que a conversa sozinha, e cuja interpretação pertence ao clínico e à família, não ao desenho.

Um genograma construído com processo estruturado e lido como fonte de hipóteses não é um instrumento por validar usado às cegas. É o uso que a literatura descreve desde 1985.

Referências

Alexander, J. H., Callaghan, J. E. M., & Fellin, L. C. (2022). Genograms in research: Participants' reflections of the genogram process. Qualitative Research in Psychology, 19(1), 91–111. https://doi.org/10.1080/14780887.2018.1545066

Butler, J. F. (2008). The family diagram and genogram: Comparisons and contrasts. The American Journal of Family Therapy, 36(3), 169–180. https://doi.org/10.1080/01926180701291055

Hardy, K. V., & Laszloffy, T. A. (1995). The cultural genogram: Key to training culturally competent family therapists. Journal of Marital and Family Therapy, 21(3), 227–237. https://doi.org/10.1111/j.1752-0606.1995.tb00158.x

Joseph, B., Dickenson, S., McCall, A., & Roga, E. (2023). Exploring the therapeutic effectiveness of genograms in family therapy: A literature review. The Family Journal, 31(1), 21–30. https://doi.org/10.1177/10664807221104133

Kerr, M. E., & Bowen, M. (1988). Family evaluation: An approach based on Bowen theory. W. W. Norton.

Lins, D. R. T., Santos, N. F., Santos, R. C. L., & Moura, G. C. (2016). Avaliação inter e transgeracional da família. Cadernos de Graduação: Ciências Humanas e Sociais, 3(2), 61–72.

McGoldrick, M., Gerson, R., & Petry, S. (2020). Genograms: Assessment and treatment (4.ª ed.). W. W. Norton.

Mello, D. F., Vieira, C. S., Simpionato, É., Biasoli-Alves, Z. M. M., & Nascimento, L. C. (2005). Genograma e ecomapa: Possibilidades de utilização na estratégia de saúde da família. Revista Brasileira de Crescimento e Desenvolvimento Humano, 15(1), 78–88.

Newbury, K. (2019). A picture is worth a thousand words: The strengths and limitations of genograms in educational psychology practice [Tese de doutoramento, Tavistock and Portman NHS Trust / University of Essex]. Essex Research Repository. https://repository.essex.ac.uk/25186/

Penteado, P. A. (2025). Genograma e atenção primária à saúde. Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, 20(47), Artigo 4621. https://doi.org/10.5712/rbmfc20(47)4621

Platt, L. F., & Skowron, E. A. (2013). The Family Genogram Interview: Reliability and validity of a new interview protocol. The Family Journal, 21(1), 35–45. https://doi.org/10.1177/1066480712456817

Rich, E. C., Burke, W., Heaton, C. J., Haga, S., Pinsky, L., Short, M. P., & Acheson, L. (2004). Reconsidering the family history in primary care. Journal of General Internal Medicine, 19(3), 273–280. https://doi.org/10.1111/j.1525-1497.2004.30401.x

Rogers, J., & Holloway, R. (1990). Completion rate and reliability of the self-administered genogram (SAGE). Family Practice, 7(2), 149–151. https://doi.org/10.1093/fampra/7.2.149

Rogers, J. C., & Cohn, P. (1987). Impact of a screening family genogram on first encounters in primary care. Family Practice, 4(4), 291–301. https://doi.org/10.1093/fampra/4.4.291

Rogers, J. C., Rohrbaugh, M., & McGoldrick, M. (1992). Can experts predict health risk from family genograms? Family Medicine, 24(3), 209–215.

Rohrbaugh, M., Rogers, J. C., & McGoldrick, M. (1992). How do experts read family genograms? Family Systems Medicine, 10(1), 79–89. https://doi.org/10.1037/h0089325

Wendt, N. C., & Crepaldi, M. A. (2008). A utilização do genograma como instrumento de coleta de dados na pesquisa qualitativa. Psicologia: Reflexão e Crítica, 21(2), 302–310. https://doi.org/10.1590/S0102-79722008000200016

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